Vídeo mostra PMs de SP obrigando suspeito a gritar 'eu amo a polícia'

maio 27, 2016

Detido em baile funk grita ainda ‘não presto’, ‘sou vagabundo’ e é agredido. Ouvidoria denuncia tortura; Corregedoria da Polícia Militar vai apurar caso.


A Ouvidoria da Polícia de São Paulo apura a denúncia de tortura, xingamentos e agressão cometidos por policiais militares em um vídeo que mostra os agentes com um suspeito, que é obrigado a caminhar a pé e gritar “eu amo a polícia”, "eu não presto" e "eu sou vagabundo", enquanto apanha de um dos PMs (veja acima a filmagem obtida pelo G1).

Procurada nesta sexta-feira (27) pela equipe de reportagem, a Ouvidoria informou que também irá encaminhar o caso para apuração do Ministério Público (MP). A Corregedoria da Polícia Militar (PM) informou ao G1 vai instaurar inquérito para identificar os policiais envolvidos e "adotar medidas cabíveis", segundo a assessoria de imprensa da corporação.

A PM também apura qual o motivo da prisão do suspeito e para onde ele foi levado. A identidade e paradeiro dele ainda são desconhecidos (leia mais abaixo a íntegra da nota).

A gravação foi realizada na noite do dia 22 de maio na Zona Leste da capital após a PM atender a uma ocorrência num baile funk, segundo o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (Condepe). Elas foram feitas por moradores do Jardim Planalto e encaminhadas inicialmente ao Centro de Direitos Humanos de Sapopemba (CDHS).

“Pode ser crime de lesão corporal, injúria e tortura psicológica”, disse o ouvidor da Polícia, Julio Cesar Neves, após ser procurado e assistir ao vídeo. “Pode estar caracterizado crime de tortura. Tortura não se admite nem em guerra”.

“A Ouvidoria vai tomar as providências indispensáveis nesse caso. É chocante tomar conhecimento que agentes do Estado tenham a capacidade de agir com maneira tão chocante”, disse Neves. “Vamos pedir que a Corregedoria [da PM] assuma o papel de correição, demitindo os policiais. E levando para o Ministério Público para que os agentes públicos sejam processados na esfera criminal”, completou o ouvidor.

"São cenas revoltantes", disse Luiz Carlos dos Santos, membro do Condepe. "A exposição e abuso de autoridade ferem os princípios da dignidade humana. Passa a se tornar um ato normal do Estado", afirmou.

A equipe de reportagem não conseguiu localizar o CDHS e o MP para comentarem o assunto. Procurada pelo G1 sobre o mesmo caso, a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública (SSP) não se manifestou até esta publicação.

Por meio de nota, a PM disse que o vídeo "sugere postura inadequada e contrária aos procedimentos preconizados pela corporação, independentemente da infração cometida pelo suspeito, motivo pelo qual está sendo realizada rigorosa apuração. A Corregedoria da PM irá instaurar inquérito policial militar para identificar os policiais e adotar as medidas cabíveis."

Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! O Tático é foda! Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! Eu não presto! Eu sou vagabundo! Eu amo o  Tático! Tático é foda!  Eu amo o  Tático! Tático é foda! Eu amo a polícia! eu amo a polícia!"
Suspeito detido pela PM é obrigado a se ofender e elogiar à polícia
Flagrante
O vídeo de 1 minuto e 5 segundos de duração mostra um policial fardado segurando um suspeito não identificado, com as mãos para trás, aparentemente algemado.

Segundo Santos, a PM abordou o suspeito, que seria um adolescente negro, por volta das 22h durante um baile funk na Praça Leidiane Pimentel. Em seguida, as imagens mostram eles caminhando pela Rua Francisca Marinho, segundo o Condepe.

Nas cenas, uma viatura da Força Tática, um grupamento especial da Polícia Militar, acompanha o policial e o suspeito. Mais dois policiais aparecem caminhando atrás. O Conselho tenta identificar o número do veículo para saber quem são esses PMs e o suspeito.

O Condepe ainda busca informações se o suspeito foi levado a alguma delegacia. O paradeiro dele é desconhecido. Nas imagens, um policial grita “fala mais alto!” para o suspeito detido, que responde “eu não presto! Eu sou vagabundo!”. Na gravação, o PM também agride o homem no rosto com um cassetete.

O vídeo foi feito durante a noite em frente a um bar. Algumas pessoas aprovam o achincalhamento público. “É isso aí! Parabéns, irmão!”. Em seguida são ouvidas palmas.
Da esquerda para a direita: polícia acompanha suspeito enquanto o obriga a dizer frases como "eu amo a polícia"; na sequência, policial e viatura passam em frente a bar com detido; e depois, continuam por rua, onde suspeito é agredido (Foto: Reprodução/Divulgação)
Veja a sequência do diálogo no vídeo:

Suspeito - Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! Eu amo a polícia!

PM - Mais alto! (viatura acompanha policial, que segura suspeito com a mão esquerda).

Suspeito - Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! Tático é foda! Eu amo a polícia! (o Tático é a Força Tática).

PM – Fala mais alto!

Suspeito - Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! O Tático é foda! Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! Eu não presto! Eu sou vagabundo! Eu amo o Tático! Tático é foda! Eu amo o Tático! Tático é foda! Eu amo a polícia! eu amo a polícia!

Voz masculina – Você perdeu, vagabundo! (em seguida, imagem mostra PM agredindo suspeito no rosto com cassetete).

Suspeito - Eu amo a polícia! Eu amo a polícia! Eu amo a polícia!

Voz masculina – É isso mesmo. Parabéns, irmão! (palmas são ouvidas).

Fonte: Kleber Tomaz

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